“Os sonhos são também contos tradicionais que nós nos contamos a nós próprios na hora dos nossos problemas” ,(João dos Santos, 1990)















segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O Equilíbrio como Liberdade de Escolha dentro do que é Possível ...

Uma antiga e conhecida lenda conta que todas as vivências e emoções humanas costumavam encontrar-se num frondoso bosque mágico para brincarem. Ali, o ódio, a esperança, a inveja, o amor e o medo, corriam de um lado para o outro sem parar, perseguidos pelo rancor, a loucura, a traição, a alegria e a curiosidade.


Dizem que um dia, enquanto jogavam às escondidas, a loucura procurava o amor que se tinha escondido por entre um monte de folhas.Entretanto, a traição aproximou-se  dela com um tridente de pontas afiadas e instigou a loucura a trespassar as folhas para o descobrir. E a loucura assim o fez. Sem ponderar o dano que resultaria da sua acção. Conta a lenda que desde então, o amor ficou cego e que a loucura, sentindo-se culpada, decidiu guiar-lhe os passos.

Depois de tanto andarem juntos, o amor e a loucura acabaram por transformar-se num casal e foram muito felizes. Poucas coisas são eternas e chegou um momento em que o amor, cansado de tanto delirio, descontrolo e incertezas, deixou o seu guia e decidiu casar com a razão.

O amor não se enganou na sua decisão, porque, guiado pela razão, os perigos desapareceram e as inseguranças desvaneceram-se.

Nada é perfeito, como sabemos, e então, passado algum tempo, o amor começou a aperceber-se de que no meio de tanta segurança se sentia tranquilo, mas no entanto se aborrecia de morte!
Depois de muito pensar e após consultar a sua amiga fantasia, o amor tomou uma decisão, ou melhor, duas:

Continuava casado com a razão, mas dar-se-ia a liberdade de, ocasionalmente, se encontrar com a sua antiga e amada companheira, para se deixar levar por ela e perder-se na loucura, por breves momentos, antes de regressar renovado, para os braços da razão.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A Arte de Mudar

Levanto-me de manha. Saio da minha casa. Há um buraco no passeio. Não o vejo! E caio nele.

No dia seguinte, saio da minha casa, esqueço-me de que há um buraco no passeio e torno a cair nele!

Ao terceiro dia, saio da minha casa procurando recordar-me de que há um buraco no passeio. No entanto não me recordo e caio nele!

Ao quarto dia, saio da minha casa procurando recordar-me  do buraco no passeio. Recordo-me e, apesar disso, não vejo a cova e caio nele!

Ao quinto dia, saio da minha casa. Recordo que tenho de ter presente o buraco no passeio e caminho a olhar para o chão. E vejo-o e , apesar de o ver, caio nele!

Ao sexto dia, saio de minha casa. Recordo-me do buraco no passeio. Vou a procurá-lo com os olhos. Vejo-o, tento saltar por cima dele, mas caio nele.

Ao sétimo dia, saio de casa. Vejo o buraco. Tomo impulso, salto, roço com a ponta dos meus pés o rebordo do outro lado, mas não é o suficiente e caio nele.

Ao oitavo dia, saio de minha casa, vejo o buraco, tomo impulso, salto, chego ao outro lado! sinto-me tão orgulhoso por o ter conseguido que o celebro dando saltos de alegria...
E, ao fazê-lo, caio outra vez no buraco.

Ao nono dia, saio de minha casa, vejo o buraco, tomo impulso, salto-o e sigo o meu caminho.

Ao décimo dia, hoje precisamente, dou-me conta de que é mais cómodo caminhar pelo passeio em frente....

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Só o Desejo não Chega !

Conta-se que três astronautas, um alemão, um japonês e um argentino foram convocados para um prolongado desafio espacial. Estariam durante três anos numa nave a orbitar um planeta distante e isolados de todo o contacto com a terra. Foi permitido a cada um deles levar consigo o que quisesse, desde que não excedesse o limite de peso marcado para o lançamento: quarenta quilos por astronauta. O alemão disse que sempre quisera aprender inglês, mas que nunca tivera tempo nem oportunidade para se dedicar ao estudo da língua pelo que essa seria uma boa ocasião - No dia da partida apareceu com dois enormes baús que reuniam exactamente os quarenta quilos permitidos cheios de livros, vídeos e matéria áudio para o curso. O japonês disse que a sua única motivação na vida era o amor pela namorada, por isso, no dia da partida apareceu com uma pequena japonesa que envergando um fato especial, pesava exactamente quarenta quilos. O argentino disse que o seu maior prazer na vida era fumar havanos de boa qualidade, por isso no dia da partida apareceu com um contentor cheio de caixas de charutos puros de La Habana que pesava exactamente quarenta quilos



Os três astronautas subiram para a nave e foram lançados com êxito para desempenhar a sua missão.


Três anos mais tarde, a nave regressa à terra, milhares de pessoas acorrem para ver sair do habitáculo os heróis do momento.


Abre-se a escotilha:






- hello…Hello! - diz o alemão a sorrir - How are you my friends? – Saúda ele num inglês perfeito


Minutos depois sai o japonês com um sorriso esplêndido nos lábios. Por trás dele, a mulher com um bebé nos braços, trazendo pela mão uma cativante menina de dois anos, de bonitos olhos rasgados iguais aos do pai….






Passam dois minutos e sai o argentino, sai quase a correr, desesperado, com dois charutos em cada mão e três na boca:


- Lume, por favor, quem me dá um isqueiro? Um fósforo, por favor…Lume…

( in Bucay, 2009)

A Força das Expectativas na nossa vida

Seis mineiros trabalhavam num túnel muito profundo a extrair minério das profundezas da terra. De repente, um desmoronamento deixou-os isolados do exterior, fechando a saída do túnel. Em silêncio, olharam uns para os outros. Com um olhar avaliaram a situação. Com a experiência que tinham, rapidamente se aperceberam de que o problema seria o oxigénio. Se tudo corresse bem, restariam cerca de três horas de ar, quanto muito três horas e meia.


Muitas pessoas lá fora sabiam que eles ali se encontravam presos mas um desmoronamento como aquele significava perfurar de novo a mina para conseguir chegar até eles. Seriam capazes de o fazer antes que o ar acabasse?

Os mineiros decidiram que deveriam poupar a maior quantidade de oxigénio possível. Concordaram em ter o menor desgaste físico possível, apagaram as lanternas que tinham e deitaram-se em silêncio no chão.

Emudecidos pela situação e imóveis na obscuridade, era difícil calcular o tempo que passava. Apenas um deles tinha o relógio. Todas as perguntas lhe eram dirigidas: quanto tempo passou?

Quanto falta?

E agora?

O tempo demorava a passar, os minutos pareciam horas e o desespero face a cada pergunta tornava a tensão cada vez maior. O chefe dos mineiros apercebeu-se de que, se continuassem assim, a ansiedade os levaria a respirar mais rapidamente e isso poderia matá-los. Assim, ordenou ao que tinha o relógio que só ele controlasse o decorrer do tempo. Ninguém faria mais perguntas. Ele avisaria de meia em meia hora.

Cumprindo a ordem, o dono do relógio olhava para ele e quando a primeira meia hora passou, disse: “ Passou meia hora”. Ouviu um murmúrio entre eles e a angústia instalava-se no ar.

O homem do relógio apercebeu-se de que, à medida que o tempo passava, seria cada vez mais difícil dizer-lhes que o minuto final se aproximava. Sem consultar ninguém, decidiu que não mereciam morrer a sofrer. Por isso, da seguinte vez que lhes anunciou que passara meia hora, haviam decorrido da realidade 45 minutos.
Não havia maneira de notar a diferença, por isso ninguém desconfiou.

Encorajado pelo êxito obtido, deu a terceira informação já quase depois de uma hora decorrida: Disse: “ Passou mais meia hora” E os cinco acreditaram que estavam presos há hora e meia e todos pensaram em como o tempo parecia custar a passar.
O dono do relógio continuou a fazer o mesmo e a cada hora passada, dizia-lhes que decorrera meia hora.
A equipa apressava-se para os resgatar, sabiam em que galerias estavam presos e que seria difícil conseguir alcança-la antes de passadas quatro horas.
Alcançaram-nos quatro horas e meia depois. O mais provável era encontrar os seis mineiros mortos.
Encontraram cinco vivos.
Somente um tinha morrido de asfixia: o que tinha o relógio.



In J. Bucay, 2009