“Os sonhos são também contos tradicionais que nós nos contamos a nós próprios na hora dos nossos problemas” ,(João dos Santos, 1990)















terça-feira, 17 de agosto de 2010

A Força das Expectativas na nossa vida

Seis mineiros trabalhavam num túnel muito profundo a extrair minério das profundezas da terra. De repente, um desmoronamento deixou-os isolados do exterior, fechando a saída do túnel. Em silêncio, olharam uns para os outros. Com um olhar avaliaram a situação. Com a experiência que tinham, rapidamente se aperceberam de que o problema seria o oxigénio. Se tudo corresse bem, restariam cerca de três horas de ar, quanto muito três horas e meia.


Muitas pessoas lá fora sabiam que eles ali se encontravam presos mas um desmoronamento como aquele significava perfurar de novo a mina para conseguir chegar até eles. Seriam capazes de o fazer antes que o ar acabasse?

Os mineiros decidiram que deveriam poupar a maior quantidade de oxigénio possível. Concordaram em ter o menor desgaste físico possível, apagaram as lanternas que tinham e deitaram-se em silêncio no chão.

Emudecidos pela situação e imóveis na obscuridade, era difícil calcular o tempo que passava. Apenas um deles tinha o relógio. Todas as perguntas lhe eram dirigidas: quanto tempo passou?

Quanto falta?

E agora?

O tempo demorava a passar, os minutos pareciam horas e o desespero face a cada pergunta tornava a tensão cada vez maior. O chefe dos mineiros apercebeu-se de que, se continuassem assim, a ansiedade os levaria a respirar mais rapidamente e isso poderia matá-los. Assim, ordenou ao que tinha o relógio que só ele controlasse o decorrer do tempo. Ninguém faria mais perguntas. Ele avisaria de meia em meia hora.

Cumprindo a ordem, o dono do relógio olhava para ele e quando a primeira meia hora passou, disse: “ Passou meia hora”. Ouviu um murmúrio entre eles e a angústia instalava-se no ar.

O homem do relógio apercebeu-se de que, à medida que o tempo passava, seria cada vez mais difícil dizer-lhes que o minuto final se aproximava. Sem consultar ninguém, decidiu que não mereciam morrer a sofrer. Por isso, da seguinte vez que lhes anunciou que passara meia hora, haviam decorrido da realidade 45 minutos.
Não havia maneira de notar a diferença, por isso ninguém desconfiou.

Encorajado pelo êxito obtido, deu a terceira informação já quase depois de uma hora decorrida: Disse: “ Passou mais meia hora” E os cinco acreditaram que estavam presos há hora e meia e todos pensaram em como o tempo parecia custar a passar.
O dono do relógio continuou a fazer o mesmo e a cada hora passada, dizia-lhes que decorrera meia hora.
A equipa apressava-se para os resgatar, sabiam em que galerias estavam presos e que seria difícil conseguir alcança-la antes de passadas quatro horas.
Alcançaram-nos quatro horas e meia depois. O mais provável era encontrar os seis mineiros mortos.
Encontraram cinco vivos.
Somente um tinha morrido de asfixia: o que tinha o relógio.



In J. Bucay, 2009